O pastor que não sabia que fazia conservação da Natureza

Há uma ave nas Serras de Aire e Candeeiros que depende da pastorícia para sobreviver. O pastor, na maior parte dos casos, não sabe disso.

A gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax ) é inconfundível. Corpo inteiramente preto, bico longo, fino e recurvado em vermelho vivo, patas da mesma cor. Em voo, é acrobática e ruidosa, com um grito metálico que ressoa nas encostas calcárias. Quando aparece durante um tour, paramos para a observar. É esse tipo de ave.

Mas o que a maioria não sabe, e que eu próprio demorei a perceber, é o que a mantém aqui.

A gralha-de-bico-vermelho está associada a áreas onde predominam a agricultura de baixa intensidade e a pastorícia tradicional. É uma espécie muito vulnerável às alterações humanas, como o abandono das terras e as mudanças nas práticas agrícolas e pecuárias. Por outras palavras: quando o pastor desaparece, a gralha desaparece com ele.

A razão é tão simples e elegante…

A gralha-de-bico-vermelho tem uma dieta relativamente especializada, alimentando-se de insectos e outros invertebrados do solo, escaravelhos, gafanhotos, lagartas e larvas. Nos períodos de escassez, como no inverno, também se alimenta de material vegetal.

E onde se encontram estes insectos? Vivem na terra revolvida pelo gado, nos restolhos, nos pousios, nos lameiros. Sem pastoreio extensivo, sem insectos. Sem insectos, sem gralha.

O pastor que passa com o rebanho pelas encostas da serra não está a fazer conservação. Está a fazer o que sempre fez… O que o seu pai fez, e o pai do seu pai. Mas o efeito ecológico do que faz é exactamente esse: manter vivo um habitat que uma ave classificada como “Em Perigo” em Portugal não consegue encontrar em mais lado nenhum.

Aqui está o dado que mais me surpreendeu quando o aprendi: a nível global, a gralha-de-bico-vermelho é considerada “Pouco Preocupante”. Em Portugal, é considerada “Em Perigo”. A mesma espécie, dois estatutos opostos. O que muda entre a escala global e a portuguesa é exactamente isto: a velocidade com que a agricultura tradicional está a desaparecer aqui.

A qualidade dos habitats desta espécie é assegurada nas paisagens moldadas por actividades humanas ancestrais, como a agro-pastorícia tradicional, que tendem a ser reconvertidas e/ou abandonadas em larga escala. Quando o nosso interior se esvazia e os campos ficam sem trabalho, o processo é silencioso. As pessoas partem, os rebanhos diminuem, a vegetação fecha. E a gralha, sem o saber, perde o único supermercado que conhece.

Nas Serras de Aire e Candeeiros, a gralha-de-bico-vermelho ainda existe, mas por quanto tempo?

As serras de Aire e Candeeiros são um dos núcleos de distribuição da espécie em Portugal, a par de Peneda-Gerês, Serra do Marão, Serra da Estrela, Douro Internacional e a costa sudoeste. Ainda existe aqui por ainda haver (alguns, poucos) pastores, e com o facto de o Parque Natural ter criado condições para que a pastorícia tradicional se mantivesse em partes do território e a proteção dos locais de nidificação.

Gostava de mostrar esta ave em quase todos os tours. Não apenas porque é bonita, que é. Mas porque é o argumento mais visível de algo que tento explicar em cada saída: o território não é Natureza separada da Humanidade. É uma dança, uma conversa entre os dois, acumulada ao longo de séculos. Quando essa conversa pára, as consequências são invisíveis durante algum tempo. Depois aparecem… numa espécie que desaparece, num silêncio que não devia estar lá.

O pastor não sabia que estava a salvar a gralha. A gralha não sabe que depende do pastor. Mas a relação existe, funciona, e é frágil o suficiente para que qualquer um dos dois desaparecer a ponha em causa.

É isso que tento mostrar. Não a ave. A relação.


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